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JUVENTUDE E VIOLÊNCIA: culpados ou vítimas?

Lembro-me, na minha juventude, quando se falava da “Guerra das Malvinas” como algo que nos preocupava. Previa-se que poderia ser o desencadear da Terceira Guerra Mundial. Isto era violência e era violência também assaltos a bancos, pessoas que brigavam e algum tirava a vida do outro, fatos que aconteciam de vez em quando. Na época dos meus avós, com toda certeza, um momento marcante de violência foi a Primeira Guerra Mundial, como para meus pais deve ter sido a Segunda. Para todos nós, maconha e outras drogas eram coisa de “hippies” ou outros contestadores.

Não sei se já paramos para pensar o que é a violência na vida dos nossos jovens de hoje. Nasceram e estão crescendo sob o signo de uma violência cada vez mais presente no nosso cotidiano e cada dia mais banalizada pela excessiva exposição na mídia, o que vai tornando tudo muito natural. Mata-se de todos os modos, todos os dias, por motivos insignificantes e banais. Temos vistos pais e madrastas matando filhos inocentes, e filhos, drogados ou não, matando pais. Roubos, assaltos e seqüestros às dezenas todos os dias praticados por quem vive no morro e também por quem pertence às classes mais abastadas.

Para aqueles que nasceram a 25, 30, 40 ou mais anos atrás, tais situações nos incomodam porque podemos compará-las com outra realidade melhor que conhecemos antes. Para as crianças e jovens que estão nascendo dentro deste contexto tudo se torna muito natural. Não há impacto, mas apenas o conviver e aprender dentro de um mundo que parece “maluco” e furioso. Isto é o que ensinamos e, depois, reclamamos que os jovens aprenderam.

Pense num rio suave, que corre tranqüilo em meio a uma planície que o mantém livre e sereno. Pense agora, que em algum momento margens vão se erguendo e afunilando o percurso deste mesmo rio. Logo ele se tornará caudaloso, formará uma grande torrente, ganhará força e correnteza capaz de provocar inundações e destruição. De quem é a culpa: do rio ou das margens? Para nos fazer pensar sobre isto Bertold Brecht escreveu: “Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

Que o jovem tem que ser responsabilizado pela violência que promove e provoca todos estamos de acordo. É preciso, contudo, que tenhamos a capacidade de entender que ele não pode ser responsabilizado sozinho. A sociedade tem sua grande parcela de culpa e, portanto, temos que pensar que precisamos ajudar o jovem que errou a reencontrar o seu caminho e não nos preocuparmos apenas em puni-lo.

Por fim, vale ainda lembrar que as leis que hoje regem a sociedade nasceram para assegurar respeito aos nossos direitos. A sociedade estabeleceu normas para que todos pudessem viver bem. Este é o sentido de termos leis. Quando a lei não consegue envolver todos os seus cidadãos, porque os discrimina pela cor, raça, roupa que usa, modo de se vestir, bairro em que mora, gíria que usa, o agride quando deveria protegê-lo, e assim por diante, este mesmo cidadão não se sente na obrigação de respeitar esta lei. Por isto ele a transgride, viola, desrespeita, pratica a violência.

É por estas e outras razões que, como pais e educadores cristãos, não podemos perder a esperança nos jovens, não podemos deixar de olhá-los com olhares de misericórdia e nos comprometermos a ajudá-los. Já dizia Jesus no seu tempo: “não são os sãos que necessitam de médico, mas os doentes”. Violência é uma das doenças da sociedade moderna. Quando não conseguimos resultado em um tratamento de saúde, desconfiamos da medicação e não ficamos colocando a culpa no doente. Lembre-se: «Não vim para chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2, 17).

Por Padre Agnaldo Soares Lima

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