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JUVENTUDE E SEGURANÇA: como lidar com o jovem que se envolve com o crime?

São freqüentes nos nossos noticiários a ocorrência de manchetes que nos dão conta de rebeliões, incêndios e até mortes dentro das instituições públicas que mantém em regime de internação adolescentes que praticaram atos infracionais graves. Ora em um Estado ora em outro, estas notícias espantam e amedrontam a sociedade de uma forma geral. Tal fato tem feito inclusive com que municípios e comunidades se oponham com veemência contra o governo quando se trata de instalar uma dessas unidades na cidade ou num determinado bairro.

Com as notícias constantes da violência provocadas pelo crime organizado, pelo narcotráfico, por quadrilhas de seqüestradores, há uma tentação de acreditarmos que todos aqueles que praticam algum tipo de crime ou ato infracional seja sempre um bandido perigoso. Essa condição, porém, não pode ser generalizada, sobretudo quando falamos de jovens que vivem um momento de desenvolvimento e amadurecimento.No processo frágil de auto-afirmação os adolescentes e jovens, como também nós adultos, querem ser valorizados, reconhecidos, respeitados, ter pequenos ou grandes espaços de poder, ter sucesso, conseguir dinheiro para realizar seus pequenos ou grandes desejos. Tudo isto é muito natural e instintivo. O grande problema é que pelas condições familiares (desestrutura, falta de cuidado e atenção por parte dos pais), pela realidade das nossas escolas (não estimulam o aprendizado e estão logo colocando para fora os alunos mais difíceis); pela marginalização social (habitação precária, bairros sem infra-estrutura, discriminação as mais variadas), muitos jovens carregam dentro de si um sentimento de exclusão, de ser um “Zé Ninguém” perante a sociedade.

Se esta é a condição do jovem na chamada “sociedade do bem”, muito diferente é a forma como se dá a sua aproximação com a “sociedade do crime”. Se a família não oferece o cuidado e a atenção necessários, a escola exclui, a sociedade discrimina e não oferece oportunidades, a referência de valores não foi construída, ao jovem resta um sentimento de infelicidade, baixa auto-estima, fracasso, humilhação e derrota. Aí está assentado o campo ideal para o seu envolvimento com as drogas e, conseqüentemente, para o envolvimento com o mundo da criminalidade.

No mundo do crime o jovem encontra: reconhecimento (após entregar a droga ele é “o cara”); valorização (ele é bem acolhido e bem tratado); sucesso (se ele fracassou na escola ele pode ter êxito na prática do delito); espaço de poder (com uma arma na mão ele se sente poderoso e temido); respeito (quanto mais delitos praticados, mais será respeitado), status (mesmo dentro de um Instituto de Internação ou uma penitenciária o jovem terá o status e tratamento diferenciado pela sua trajetória criminal).

Compreendido isto, vamos entender que para transformar o jovem precisamos de um sistema pedagógico e não prisional. Quando falamos de “pedagogia” estamos falando de “educação”. Educar é transmitir conhecimento, levar ao aprendizado. O que se quer ao trabalhar com o adolescente envolvido na prática de ato infracional, não é levá-lo a conhecer a violência e as regras do crime, que ele domina muito melhor que seus educadores. Ao contrário, busca-se fazê-lo descobrir e experimentar tudo o que faltou antes e que fez com que o jovem passasse a trilhar o mundo da criminalidade. Isto somente será possível num ambiente educativo, acolhedor, capaz de fazê-lo sentir-se melhor consigo mesmo e com os outros.

Ilude-se quem pensa que levar o jovem a experimentar um tratamento penoso e sofrido numa cadeia ou algo parecido, vá fazê-lo repensar a própria conduta. Sofrer por sofrer, ele já sofria antes quando estava solto e, como dissemos acima, não passava de um “Zé ninguém”. Na internação ou na cadeia ele sofre também, mas aqui pelo menos ele carrega o “status” de “bandido” é respeitado ou, pelo menos, temido.

A sociedade – cada um de nós – deve entender que o que nós precisamos é acabar com a violência. Isto só acontece quando transformamos o coração dos agressores e não apenas nos vingamos deles. É grande este desafio, mas temos que enfrentá-lo.

Por Padre Agnaldo Soares Lima

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