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JUVENTUDE E SOCIEDADE EM TRANSFORMAÇÃO: são difíceis os jovens ou é difícil ser jovem hoje?

Em 1992 cheguei a São Carlos para trabalhar no então chamado Educandário, hoje Salesianos São Carlos. Em minha bagagem duas grandes novidades: um aparelho de fax e um computador “286”. O fax era o substituto do telégrafo nascido em 1837 e o computador da velha máquina de escrever nascida em 1808. Foram necessários mais de 150 anos para que novas invenções substituíssem antigos aparelhos. Nestes 17 anos que estou em São Carlos o “286” já se tornou sucata e o fax já perdeu o lugar para outros sistemas bem mais práticos e velozes, como o scanner e o e-mail.

Mas não foi apenas isto que mudou: os aparelhos VHS deram lugar ao DVD, a velha vitrola ao CD, chegou a TV a cabo, o notebook, a internet, o celular, o MP3, MP4 e seus sucessores, os IPOD e tudo isto, já sendo substituído por novas tecnologias. Se no campo tecnologico as mudanças foram radicais e velozes, o mesmo aconteceu no campo social: novas formas de pobreza, de violência, de costumes, de valores religiosos e morais, de ser família e assim por diante.

Diante de um mundo globalizado e em profunda e constante transformação, queremos olhar os jovens de hoje com a visão de 30, 40 ou mais anos atrás. As características do medo, da insegurança, da rebeldia e da fantasia que marcam a adolescência são as mesmas do tempo de nossos avós, mas o contesto que envolve esta etapa da vida hoje, é completamente diferente.  Com quase meio século de vida devo dizer que era fácil sentar na cadeira de barbeiro, quando criança, e escolher entre “meia-cabeleira” ou tipo soldadinho para cortar o cabelo. A roupa era a do pai e da mãe num tamanho pequeno.

Mas, e hoje? Ser jovem significa ter de escolher entre centenas de cortes de cabelo  e diferentes cores para tingi-los. As grifes ancoradas pela mídia mudam seus modelos a cada três meses para instigar a sede do consumo. E o negócio é mudar o visual ou fazer papel de “careta”. E mais, isto vale para pobres e ricos, para o centro e a periferia, para a cidade e o campo. Decidir entre tantas opções não é tarefa fácil quando o poder aquisitivo ajuda, mas e quando se tem apenas o desejo, mas não as condições materiais?

Se entrarmos no campo da violência então, o que deve passar na cabeça de quem hoje entra na pré-adolescência ouvindo histórias de pais e madrastas que jogam filhas pela janela e esquartejam filhos? O que teria acontecido com nossa cabeça de adultos de hoje se tivéssemos tido que crescer dentro de uma realidade como esta, enfrentando todo este mundo louco quando não sabíamos nem mesmo o que queríamos ser?

É tão fácil e tão simples dizermos que os jovens de hoje são difíceis, são problemáticos, são violentos. Esquecemos que eles apenas tiveram o azar ou a sorte de nascer nesta realidade de mundo e sociedade, que herdaram de nós. Se nós tínhamos famílias com pais rígidos, severos, eles hoje tem famílias desestruturadas e com pais, que também se sentem desorientados e incapazes de ter parâmetros para educar seus filhos.

Não quero com isto dizer que o mundo está perdido e que não podemos ajudar os nossos jovens. Vivemos num tempo com muitas possibilidades e oportunidades. Apenas não sabemos ainda como formar e educar os nossos filhos. O ponto de partida, porém, tem de ser aquele de não querermos achar que o jovem é o culpado de todo o mal que está aí. Ele precisa ser visto também como vítima de toda uma realidade que os pressiona de todos os lados numa fase da vida de grande imaturidade. Vale lembrar aqui Bertold Brecht, que dizia: “Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

Por Padre Agnaldo Soares Lima

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